Mateus Solano defende sexo em ‘Liberdade, liberdade’: ‘O ideal seria que todas as novelas pudessem ter nudez’

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De repente, num ato de imensa covardia, o rapaz é amarrado a uma corda e arrastado pelo chão por uma viatura. Apenas com uma cueca sobre o corpo ensanguentado, é obrigado, em seguida, a inalar a fumaça despejada pelo cano de descarga do veículo. As cenas chocantes estão cristalizadas, em mínimos detalhes, na memória de Mateus Solano: lá se vão 13 anos desde que estreou na TV como intérprete de Stuart Angel, filho de Zuzu Angel e vítima da ditadura militar, num dos casos retratados pelo programa “Linha direta — Justiça”. À época, o então desconhecido ator já chamava atenção dos colegas de estúdio: tão logo terminou as sequências de sofrimento, desatou, sem vergonha diante da equipe, um choro doído de dentro de si, como se desfizesse um nó que amarrara para a ficção. Hoje, a realidade é outra. A experiência serviu de base para que não se consumisse pela dor — ou baixeza — de um personagem.

— Fui vendo que poderia deixar essas pieguices de lado, apesar de elas serem necessárias e continuarem dentro de mim, em algum lugar. Agora, dou risada de tudo. Trabalho com muito prazer, tanto para morrer quanto para matar. Aprendi que esse é o grande barato da profissão. É uma brincadeira séria, mas é uma brincadeira. É, na verdade, o que eu fazia quando era criança, gritando: “Pow, pow, pow!” — ressalta o brasiliense de 35 anos, vilão na novela “Liberdade, liberdade” como o carrasco Rubião, um ex-inconfidente que de torturado virou torturador no folhetim: — Sem dúvida, é o papel mais diferente de mim. Estou navegando em águas desconhecidas.

Ator iniciou a carreira na TV como Stuart Angel, no programa “Linha direta”, em 2003 Foto: TV Globo / Reprodução

A onda turva arrebentou no momento certeiro, numa maré estrategicamente calculada após a ressaca provocada pelo Félix de “Amor à vida” (2013). Depois de protagonizar a história de Walcyr Carrasco — e (realmente) sacudir o país como o gay inicialmente enrustido —, Solano foi orientado pela emissora a descansar o corpo e a imagem. Era preciso: dos 220 capítulos da novela, o ator esteve em 218. Após o desfecho, o fenômeno não foi enterrado: arrebanhou nações da América Latina, da África e da Europa e ganhou fôlego em páginas e montagens na internet.

Com Thiago Fragoso, com quem fez par como Félix, em “Amor à vida”
Com Thiago Fragoso, com quem fez par como Félix, em “Amor à vida” Foto: Estevam Avellar / Rede Globo/Divulgação

Não à toa o nome do personagem foi citado 17 vezes durante os 55 minutos da entrevista concedida pelo ator. É inevitável: em qualquer assunto, o substantivo próprio reina onipresente. Nas ruas, Solano é recorrentemente abordado para falar de Félix e do “personagem da novela das 11”, como a maioria se refere ao intendente de Vila Rica. Ele não liga:

— Ficaria preocupado se o esquecessem. Espero que meus outros personagens sejam tão lembrados assim. É isso o que quero! Félix está voando por aí, né? Não preciso sair de casa para ele também sair. Isso é muito doido.

Solano não se incomoda de ser chamado de Félix nas ruas: ‘Ficaria preocupado se o esquecessem’
Solano não se incomoda de ser chamado de Félix nas ruas: ‘Ficaria preocupado se o esquecessem’ Foto: Divulgação / Ricardo Penna

Mesmo assim, o artista achou que precisava lançar um banho de água fria sobre o público. O retorno às telinhas aconteceu propositalmente sob a pele de figuras imprevisíveis — primeiro, veio o despachado Zé Bonitinho, da “Escolinha do Professor Raimundo”; mais tarde, surgiu finalmente Rubião, asqueroso e indigesto.

— Era necessário esse choque na minha imagem — admite ele, lembrando que, durante os dois anos em que esteve afastado das novelas, protagonizou duas peças, estrelou três filmes e viu nascer seu segundo filho, Benjamin, de 1 ano, irmão da primogênita, Flora, de 5.

Como Zé Bonitinho, da “Escolinha do professor Raimundo”
Como Zé Bonitinho, da “Escolinha do professor Raimundo” Foto: Rede Globo/Divulgação / Paulo Belote

A matemática, porém, resultou equações surpreendentes: num lance do acaso, após abrir caminhos na teledramaturgia com o primeiro beijo entre homens numa novela brasileira, o ator assistirá, de camarote, à primeira cena de sexo gay na TV — as sequências previstas para 12 de julho envolverão Caio Blat e Ricardo Pereira, seus colegas na produção histórica. A coincidência é vista com bons olhos.

— O ideal seria que todas as novelas pudessem ter nudez e outras coisas. É claro que você não pode incitar a violência para o público infantil… Não é disso que estou falando! Mas, de alguma forma, a censura sufoca na novela das 11 tudo o que não pode ser visto antes. Ah, não pode mostrar isso na novela das seis? Não pode na novela das sete e das nove? Então, na trama das 11, nós vamos conseguir! Aí bota cigarro, violência, sexo, isso, aquilo… O público perde. As outras produções estão irreais, não? O povo só toma suquinho? Cadê a cerveja, a sujeira, a verdade? Acho que “Liberdade, liberdade” traz a realidade. Nada é apelativo — argumenta.

Nu, em cena de “Liberdade, liberdade”
Nu, em cena de “Liberdade, liberdade” Foto: TV Globo / Reprodução

A aparição com o corpo nu ainda no primeiro capítulo da trama não foi motivo de reflexões ou receio. Ao seguir as orientações do autor, Mário Teixeira, Solano não previu, em momento algum, que pipocariam repercussões calorosas na internet.

— Acho superbacana. É chique, né? — brinca, orgulhoso em participar de obras mais ousadas e irreverentes, que tocam em assuntos ainda tratados como tabu: — É como se gritássemos: “Vai, gente! Vai para a frente! Não é para ir para trás, não!”. Sou um cara que gosta muito de tradição, mas não da tradição homofóbica. Entendo a dor de deixar dogmas para abraçar inúmeras questões, como novas famílias, novas formas de ver o mundo, novas maneiras de se alimentar e novos jeitos de se locomover. É difícil, sim, deixar velhos costumes para trás. Ao mesmo tempo, precisamos caminhar para frente. No fim, vai morrer todo mundo, e isso daqui vai explodir. Temos que seguir adiante. Ou então vamos ser aquela gente que permaneceu no “Game of Thrones”, um povo que está no ano 10.000, mas vive na Idade Média. Não, não, não!

Nos bastidores de “Liberdade, liberdade”, com Andreia Horta, Nathalia Dill e Bruno Ferrari
Nos bastidores de “Liberdade, liberdade”, com Andreia Horta, Nathalia Dill e Bruno Ferrari Foto: Pedro Curi / Divulgação/Rede Globo

Impossível não lembrar da censura ao beijo gay entre Félix e Niko (Thiago Fragoso) no Peru, onde “Amor à vida” foi transmitida por uma emissora local no ano passado. Lá, antes de a derradeira cena ser exibida, uma legenda alertou pais e mães a tirarem as crianças da sala. Mais uma vez, voltamos à criatura que teima em não se descolar do rosto do homem. Acontece sem querer. Solano quer falar sobre isso. É um assunto que o movimenta: ele sabe (e gosta de saber) que, para sempre, estará associado à bandeira LGBT.

— Infelizmente, tenho a impressão de que estamos engatinhando em alguns lugares. Somos todos hipócritas mesmo. O incrível é que esse mesmo canal de TV apresenta mulheres seminuas rebolando na cara das pessoas, à tarde. Cadê a vigilância em cima do machismo? — questiona, em tom calmo.

Cena de beijo gay em “Amor à vida” foi censurada no Peru
Cena de beijo gay em “Amor à vida” foi censurada no Peru Foto: Rede Globo / Reprodução

Seguro, o ator não hesita ao frisar que se considera livre diante do mundo. O sucesso decorrente do trabalho é uma liberdade. A família construída ao lado da atriz Paula Braun, com quem está junto desde 2008, é uma liberdade. No campo das ideias, a preferência por estradas menos tortuosas, sem radicalismos, é uma liberdade: ele está sempre disposto a ouvir ideias. No período em que o país se dividia entre coxinhas e mortadelas, por exemplo — e o impeachment de Dilma Rousseff ainda era um desenho a ser emoldurado —, Solano acreditava em ambos os lados.

— Sou firmemente contra a polarização. Sei que é uma opinião ignorante. Se me perguntam “Tá, mas e aí, Mateus?”, não sei o que responder. Só acho que é tão melhor conversar, em vez de ficar um vestido de vermelho e outro de verde e amarelo, trocando xingamentos — justifica: — Muitos podem me ver como vaselina ou como o cara que fica em cima do muro. Mas não é por aí… Penso que o Brasil não está nem à direita nem à esquerda. O país está em volta disso.

A postura se estende para a religião. Mesmo as próprias convicções judaicas, Solano relativiza. Por vezes, bate um prato de porco no almoço. Entre a Torá e a bibliografia do físico Newton, fica com a última opção. Na união matrimonial travada com a mulher, em 2011, uma mistura de orações encheu o altar.

— Acredito em tudo e não acredito em nada. No meu pensamento, faço questão de ser livre. Se creio em espiritismo? Sim! Budismo? Acho do caramba! Macumba? Pô, é o máximo! — diz.

Mateus Solano se considera livre: “Acredito em tudo e não acredito em nada”
Mateus Solano se considera livre: “Acredito em tudo e não acredito em nada” Foto: Rodrigo Penna / Divulgação

O que o deixa incomodado mesmo — e sobre isso nenhum diálogo há de mudar a posição — é a patrulha dos paparazzi sobre os filhos. Em abril, o ator publicou uma carta aberta proibindo jornais e revistas de veicular fotografias dos pequenos. Novamente, liberdade está em jogo. Mal ou bem, o assédio acabou reforçando o lado mais recatado do artista.

— Particularmente, acho que “there’s no place like home” (em inglês, “não há lugar como nossa casa”). Estou ficando cada vez mais light. É que Félix foi muito, né? As pessoas vinham sempre com muita energia para cima de mim — recorda, acrescentando: — Liberdade, para mim, é voltar para casa e assistir a um filminho com a minha mulher. E eu sei que isso também é liberdade para ela. Olha que beleza!

Com a mulher Paula Braun, com quem está junto há oito anos
Com a mulher Paula Braun, com quem está junto há oito anos Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo

Os passeios em família são quase todos em Friburgo, na Região Serrana do Rio, onde o casal mantém um sítio. Longe de TVs e computadores, Solano aproveita para aproximar as crianças da natureza. Paula é quem revela o hábito do marido, um churrasqueiro habilidoso:

— Fico emocionada em vê-lo salvando uma borboleta ou explicando que a flor é mais feliz plantada.

Por enquanto, a dupla não planeja novos herdeiros. “Não!”, repete o ator, seco. Mas a resposta é apenas uma palavra lançada numa conversa. Solano sabe que, prevenido ou desprevenido, pode ser assaltado, de um instante para o outro, pelas voltas do mundo.

— O futuro se constrói agora. Por mais que seja clichê, é a verdade — setencia, pausando o discurso: — Mas a reportagem é sobre mim? Não é sobre a novela? Nossa, que bafo!

Peitoral definido de Solano chamou atenção nos últimos meses
Peitoral definido de Solano chamou atenção nos últimos meses Foto: Instagram / Reprodução

Rótulo de galã: “Não sou tudo isso de beleza, não…”

O termo galã sempre intrigou Solano. Quando o classificaram desse jeito pela primeira vez, em “Viver a vida” (2009), o ator torceu o nariz. “Tinha medo de ser colocado numa gaveta”, admite. Com o tempo, acostumou-se. Após a estreia de “Liberdade, liberdade”, chamou atenção ao exibir os músculos do peitoral definidos. Afinal, ele é um galã? “Quando me falam que sou lindo, digo: ‘Mamãe agradece!’. Eu me acho bonito, mas não sou tudo isso de beleza, não. Ninguém sabe o que é um galã, não é mesmo?”.

Mateus Solano é Rubião em “Liberdade, Liberdade”
Mateus Solano é Rubião em “Liberdade, Liberdade” Foto: Rede Globo/ Divulgação / Pedro Curi

Derrocada? Rubião perde força em novela

Nos próximos capítulos de “Liberdade, liberdade”, Rubião será destituído do cargo de intendente de Vila Rica. Quem assume o posto é o Monsenhor Ega (Gabriel Braga Nunes), intrigado com a falta de investigações sobre a morte de Raposo (Dalton Vigh). Com isso, o grande vilão da trama das 11 perde força em cena — fiscalizado pela nova autoridade, que também se apaixona por Rosa (Andreia Horta), ele se sentirá acuado. Será o início de uma derrocada? “Acho muito difícil Rubião ser perdoado por qualquer um. Ficaria muito surpreso com isso. Claro que as pessoas podem gostar do meu trabalho, admirar o que eu faço e tal, mas o personagem é ‘a-tudo’: amoral e por aí vai. Só o autor sabe sobre o futuro de Rubião!”, afirma Solano.

Ator é churrasqueiro habilidoso
Ator é churrasqueiro habilidoso Foto: Ricardo Penna / Divulgação

Créditos:

Texto: Gustavo Cunha

Fotos: Ricardo Penna

Styling: Alê Duprat

Produção de moda: Gabriel Ramos

Beleza: Renato Telles


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